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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

12:06
Era uma noite escura e chuvosa. Eu estava em casa sozinho, minha esposa e filha tinham ido ao shopping center fazer compras. A solidão e a tempestade formavam um momento perfeito para escrever. Neste dia eu estava escrevendo uma história para o blog chamada “Uma Verdadeira Obra de Arte”, que eu postei algum tempo atrás, apesar do que me aconteceu nessa noite. Senti como se estivesse tocando em coisas que não deveria.

Eu me lembro bem, olhei para o relógio, eram umas 9 horas e eu estava escrevendo a parte onde o personagem principal fazia um ritual satânico. As imagens do ritual rodavam na minha cabeça como um filme e eu ia adicionando algumas coisas, retirando outras e modificando a ordem com que as ações eram executadas. Lá fora, raios e trovões caiam um atrás do outro enquanto eu escrevia:

“Ele despejou o sangue em cima da bíblia o que fez gerar uma explosão…” - minha escrita foi interrompida por uma queda de energia.

A escuridão me envolveu. Eu olhei a minha volta, com os olhos ainda acostumados a luz e eu não enxergava nada, somente escutava a tempestade lá fora e meus cachorros, Rocky e Luna, correndo em minha direção assustados.

O fato de eu não ter salvo o arquivo não preocupou no momento. Eu estava mais preocupado em socorrer os cachorros e procurar meu celular para iluminar a sala, pois silhuetas sinistras me cercavam. Quando escrevo eu me concentro tanto na história que sinto como se estivesse participando de tudo. A tensão deixou minha imaginação fértil e os móveis e objetos tomavam formas que deixavam desconfortável.

O meu celular estava em cima da minha mesa então não foi difícil encontrá-lo. Os cachorros já estavam do meu lado quando eu liguei a lanterna do telefone. Andei até a cozinha, olhei pela janela que dava para a frente da casa para confirmar que a energia tinha caído em toda vizinhança. A única luz que eu vi parecia vir da lanterna do meu vizinho da frente que estava na varanda olhando a vizinhança. Ele deve ter visto a luz do meu celular por que acenou em minha direção e desapareceu atrás das plantas no seu jardim.

Peguei um saco de doritos no armário e sentei no sofá. Rocky e Luna suplicavam por um pouco do meu petisco, e às vezes, eu jogava um punhado para os dois.

Pelo celular entrei no site de notícias locais, fui na sessão do tempo e coloquei o vídeo da previsão. O meteorologista me deu a má notícia que a tempestade duraria até o dia seguinte. Liguei para minha esposa, mas o celular estava desligado, tentei o da minha filha e também não tive sucesso.

“Bom meus filhos” - disse eu olhando para os cachorros - “parece que a energia não volta hoje”. - completei desolado.

Eu queria terminar de escrever aquela história de terror, eu estava empolgado. As vezes eu escrevo e fico tão empolgado que eu não consigo deixar de pensar na história até eu terminar de escrevê-la.

Continuei a formular a cena do ritual na minha cabeça e ali fiquei por um bom tempo. A tempestade lá fora continuava. Rocky e Luna estavam inquietos, pensei que era por causa da chuva, afinal, que cachorro não tem medo de tempestades?

Rocky deu um pulo do sofá e foi até a porta de vidro da sala que dá para o quintal. Ele começou a latir, ficou de pé e as vezes olhava para trás, pedindo para que eu abrisse a porta. Luna foi logo em seguida e começou a fazer o mesmo. Os dois latiam com raiva, pensei que havia um gato lá fora. Então eu levantei e fui até a porta, os cachorros se prepararam pensando que eu iria abri-la. Olhei para fora mas não vi nada. Voltei para sofá e arrastei eles comigo.

Continuei a fazer algumas anotações pelo celular. Quando de novo os cachorros pularam em direção a porta e começaram a latir. Dessa vez corri também na expectativa de ver um gato correndo.

Eu não estava preparado para o que eu vi. Uma pessoa parada a uns 10 metros da porta olhando para mim. Levei um susto e meu coração deixou de bater por dois segundos. Pensei que iria desmaiar de medo. Fixei meu olhar na silhueta e a reconheci. Era minha esposa.

“Bem, você me matar do coração” - gritei.

“O carro estragou a duas quadras daqui, a Maria ficou lá te esperando. Abre a porta por favor.” - respondeu ela.

“Porque você não bateu na porta da frente. Chega mais perto do vidro não consigo te ver. ” - perguntei ainda sentindo uma pontada no coração.

“Abre a porta” - respondeu ela com uma voz estranha.

Tentei iluminar lá fora com a lanterna do celular, mas ela estava muito longe e a luz não chegou até lá. Mesmo assim ela colocou a mão no rosto tampando a claridade. Achei aquilo muito estranho. Os cachorros latiam como se a pessoa lá fora fosse uma estranha.

“Não acende a lanterna, tenho uma surpresa pra você.” - disse ela tentando soar mais normal.

Naquele momento eu tive a certeza que algo estava errado, mas o que eu ira fazer. Eu tinha que abrir a porta, afinal, era minha esposa lá fora e a curiosidade não me deixava preocupar com a minha segurança.

“Vou procurar a chave.” - respondi.

A chave na verdade estava na porta. O que eu realmente fui fazer foi pegar uma faca na cozinha. Abri a gaveta de talheres e peguei a maior faca havia lá, era uma faca azul que usávamos para cortar carne e estava sempre afiada.

Quando voltei ela estava bem perto da porta, sua silhueta sendo iluminada rapidamente por raios. Meu coração batia forte no meu peito, os cachorros continuavam a latir com mais raiva ainda e a chuva havia intensificado.

Destranquei a porta e coloquei a mão direita na maçaneta, a mão esquerda estava segurando a faca escondida atrás de mim. Fui rodando a maçaneta devagar e um estalo me avisou que porta estava aberta. Ela foi puxada para fora violentamente. Rocky e Luna gritaram. Rocky foi para trás do sofá e Luna correu em direção aos quartos. A silhueta que eu achava ser minha esposa aproximou-se de mim rapidamente.

A energia voltou momentaneamente mostrando com o que eu estava lidando e eu não estava preparado para o que vi. Não sei como chamar aquilo, mas vou tentar descrever a criatura da melhor maneira possível.

Tinha forma mais ou menos humana com tentáculos negros espalhados pelo corpo, mas parecia que não solido, era somente um vácuo negro que ao contato com a luz se dissolvia em uma fumaça cinza. Não tinha rosto, mas ao mesmo tempo eu pude incontáveis aparências diferentes. Era como se fosse tudo e nada em um só corpo.

Nesse segundo de luz, a criatura se afastou tentando buscar um lugar de escuridão. Eu alcancei a maçaneta e puxei a porta. A energia voltou a cair e tudo ficou escuro. Quando a porta estava para fechar senti algo segurando meu braço. Por reflexo, eu trouxe a faca que estava que estava na minha outra mão e tentei cortar o tentáculo que me segurava. Para o meu desespero a faca passou pelo que seria o corpo da criatura como se nada estivesse ali e cortou meu braço.

Soltei a faca e apesar da dor continuei segurando a porta com a outra mão. A porta foi puxada para trás uma vez mais e dessa vez eu não consegui segurar. Caí no chão, senti o celular que estava no meu bolso traseiro quebrando. Mesmo assim eu o peguei porque precisava da lanterna, tinha esperança que ele ainda funcionasse, mas para meu azar não funcionou. A criatura se aproximava de mim eu podia ver que ela sentia-se triunfante.

A única coisa que me restava era fazer uma oração. Lembrei imediatamente de uma medalhinha de São Bento que a minha esposa me presenteou que eu carrego na carteira e da oração que eu a escutei recitar várias vezes. Escutando a voz dela em minha cabeça eu repetia em voz alta:

"A Cruz Sagrada seja a minha Luz. Não seja o dragão o meu guia. Retira-te satanás. Nunca me aconselhes coisas vãs. É mau o que tu me ofereces. Bebe tu mesmo o teu veneno."

Escutei os eletrônicos voltando a vida e a luz piscando. A criatura novamente se assustou e ficou ainda mais furiosa. A energia caiu de novo e novamente eu repeti a oração. Outra vez os eletrônicos deram sinal de vida, a lâmpada que estava sobre mim explodiu. A criatura emitiu um som horrível e a energia voltou a cair depois de uns 3 segundos.

Eu sabia que estava funcionando e fui ganhando confiança. Repetindo a oração pela terceira vez, senti uma onda de energia no meu corpo, começando na cabeça, descendo pelo pescoço e ombros e seguindo até as pontas dos meus dedos. Dessa vez eu sabia que iria funcionar.

A energia voltou uma vez mais, a criatura gritou, deu meia volta e desapareceu na escuridão do meu quintal. Corri para porta e a fechei. A energia acabou e uma vez mais a escuridão me envolveu.

Luna e Rocky novamente decidiram aparecer pouco depois.

“Que guardiões fiéis vocês são viu.” - reclamei aos dois que me ignoraram e subiram no sofá.

Fui até a cozinha, peguei um pano de prato e enrolei o corte no meu braço, pois não tinha como achar o kit de primeiro socorros naquela escuridão.

Sentei no sofá com os cachorros e pensando no que havia ocorrido peguei no sono.

Mais tarde acordei com a minha esposa e filha entrando pela porta da frente. Quase fiquei cego, pois todas as luzes da casa estavam acesas, incluindo a luz que tinha explodido. O rádio estava ligado com o volume no máximo, a banda Avenged Sevenfold tocava a canção “Nightmare”. A dor do corte no meu braço me fez acordar mais rápido. Peguei meu celular no chão, estava com a tela quebrada e não funcionava.

“O que aconteceu” - Perguntou minha filha olhando para faca no chão e o pano enrolado no meu braço.

“A energia acabou e eu estava preparando alguma coisa para comer, acabei me cortando e deixando a faca cair no chão.” - Respondi.

“Que estranho, os relógios eletrônicos não estão piscando.” - notou minha esposa. “Deixa eu ver esse corte” - Completou.

Olhei para o relógio do microondas e vi que realmente não estava piscando e o visor mostrava 9:18, ou seja, mais ou menos 18 minutos depois que que a energia havia acabado. Desenrolei o pano e o corte estava lá, grande e profundo, mas não precisei dar pontos. Pomada, curativo e algumas semanas foram o suficiente para fechar.

Quando terminei de fazer o curativo fui até a casa do Manuel, meu vizinho da frente. Perguntei se a energia havia acabado e ele me disse que esteve em casa a noite toda e em hora nenhuma a energia se foi, apesar de que a luz piscava com os raios.

Ainda hoje tento entender os acontecimentos daquele dia. A faca no chão, o corte no meu braço e meu telefone quebrado me faz pensar que tudo aconteceu como eu acabei de descrever. Mas se a energia nunca acabou, como tudo aconteceu? Quem era a pessoa no jardim do meu vizinho que acenou para mim e foi para trás das plantas? Como eu vi a vizinhança sem energia? Foi tudo um pesadelo? Ou talvez minha sanidade tenha começado a falhar...

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